era-uma-vez-uma-casa-errada

 

Era uma vez uma casa errada, que de tão encoberta pela copa das árvores que a rodeavam, mal se via. Na verdade, só sei que tamanha estranheza existe, porque a minha irmã Carolina um dia se esgueirou pela floresta, mas o susto que tal bravura lhe causou, mal a deixou explicar o que tinha visto, entre a gaguez e o pânico com que chegou a casa.

Tenho 10 anos de gente e a mesma década dividida entre, uma imensa curiosidade pelo desconhecido que me abrilhanta o olhar e um receio que tantas vezes me tolda a coragem.

Quando completei esta dezena de existência, finquei pé em ir sozinha da escola até à casa da minha avó Benilde, onde passo os finais de tarde. Não gosto que me tratem como uma menina pequena, ainda mesmo que de um metro e vinte não tenha ainda passado.

Sempre que faço este caminho, ao passar pela floresta que esconde a casa errada, a meninice acelera-me o passo e a valentia esvoaça à velocidade de aves que ouvem o caçador.

Certo dia (como se diz em todas as historias de “Era uma vez…”), uma borboleta bailarina rouba-me a atenção. Sigo as suas asas de cores de arco-íris e quando dou por mim estou abraçada por pinheiros, eucaliptos, sobreiros e sem avistar o caminho que fazia. Olho em redor, olho para o alto a tentar ter alguma orientação e vou dando medrosos passos, até que… não podia acreditar… os meus olhos viam o que sempre tenebrosamente ansiei. A casa errada!

Por muito que a minha imaginação fosse fértil, jamais poderia imaginar esta excentricidade que os meus olhos viam. Não eram apenas as janelas no chão e a porta lá no alto virada ao contrário, ou sequer a chaminé que de lado cuspia nuvens de fumaça, era muito mais do que isso.

Abri e fechei os olhos mais velozmente que um TGV e esfreguei-os com os dedos, na vã esperança de que aquele cenário cinematográfico se evaporasse e algo de normal vislumbrasse, mas nem um raio de sol mudou de intensidade e algo me deixa estupefacta, de corpo petrificado no chão, mais estática que qualquer uma das milhentas árvores da floresta.

Dois rapazes. Dois estranhos rapazes dão pela minha presença e quando num misto de insensatez e pânico rodopio pronta para fugir, uma voz feminina grita:

– Espera! Não vás!

O meu corpo enregela. Vi dois rapazes, portanto, que voz era aquela? Desfaço a meia volta de 180º graus e volto a olhar para a estranha cena. Tudo igual. Dois rapazes, dois estranhos rapazes. Os meus olhos assustados denunciaram-me e os pensamentos que entram e saem da minha mente em catadupa são interrompidos novamente por uma voz de menina, mas que agora vejo, sai dos lábios de um dos rapazes.

– Não fujas, nós não fazemos mal. Queres brincar connosco?

Eu tento responder, mas a voz fica-me embargada e apenas gaguejo um “Não posso…”. Os olhos do rapaz que me falou entristecem-se e o outro rapaz tenta a sorte.

– Estás assustada. É normal, todos se assustam connosco. – pausadamente o seu olhar baixa e cabisbaixo continua. – Já cá tinhas estado uma vez e fugiste a 2 pés. Sim, porque nunca vimos ninguém com 7!

– Eu nunca aqui estive… A minha irmã é que já aqui veio. – simples frases tornam-se impossíveis de gerir com o pouco ar que me resta no peito – Ela é igual a mim, somos gémeas.

– Hum? Como assim? Que coisa mais estranha! – respondeu o rapaz.

O nó que entretanto se tinha dado no meu cérebro e incapaz de ser desatado por qualquer marinheiro experiente, não ajudou o raciocínio de estar a ser chamada de estranha pela criatura mais peculiar que alguma vez haveria avistado.

– Bom, passemos às apresentações. O meu nome é Samuel, mas podes tratar-me por Sam e este é o Victor, mas eu trato-o por Vic. E tu, como te chamas?

– Eduarda. – balbuciei – mas toda a gente me chama de Duda.

– Olá Duda! – oiço em uníssono a voz feminina do Victor e a voz rouca do Samuel.

O Sam, de postura muito recta, estava de pernas cruzadas a levitar, tem um rosto muito oval, sim, como um ovo, um tom de pele muito pálido que deixava até a dúvida sobre a sua vivacidade, tinha os olhos no meio do rosto de uma forma que eu tinha dificuldade em entender, alongando-se sobre eles a maior testa que eu alguma vez veria. No topo da sua cabeça nasciam revoltos cabelos, qual mar de Oeste picado e o seu pescoço era esguio, tal como o de uma girafa.

O seu amigo Vic, que esteve todo o tempo num baloiço de cabeça para baixo, além da estranha voz de menina, tinha também uma aparência singular, uns olhos tão esbugalhados que parecia que a qualquer momento lhe saltariam da órbita e quem sabe, me acertariam em cheio. De cabelo meticulosamente penteado para trás, apenas uma orelha, o colarinho da sua aprumada camisa apertava tanto o pescoço que estou capaz de jurar que nem o tinha.

Os meus incompreensíveis pensamentos são interrompidos pelo esticar do braço do Sam, que na minha direcção me oferece um copo que mais parecia uma taça virada ao contrário.

– Bebe, é água. Está calor e… bom… ajuda a recuperar do susto…

– Eu não estou assustada! – respondo rapidamente.

Os rapazes riram-se. Em segundos, dou por mim a rir com eles. Claro que me tinha assustado. Quem não se assustaria perante tamanha cena insólita?

Essa tarde não a passei em casa da minha avó, fiquei na companhia dos meus novos amigos que a cada milímetro que conhecia, descobria os quilómetros de ignorância que tinha acumulado por simplesmente desconhecer a sua realidade, porque quanto mais desconhecemos, mais cresce a estranheza pelo que é diferente.

Afinal, era uma vez uma casa errada, que de errado nada tinha.

 

 

 

[Foto: Emma Frances Logan]

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