Depois de inscrita e seleccionada para o concurso Speed Writing, como vos contei aqui, algo surpreendente e inesperado aconteceu lá: 2 dos meus textos foram vencedores e serão publicados na livro que a editora compilará com todos os textos escolhidos.
E qual a melhor forma de comemorarmos isto? Com mais uma história!
Assim, voltando ao início de toda esta aventura, voltei a pedir à Marisa Figueiredo do blog Em Banho Café que me desafiasse uma vez mais a escrever uma história em 5 minutos, segundo as suas premissas. As que me lançou desta vez foram as seguintes: um texto do género “mistério” que tem de incluir um animal (não humano), uma referência bíblica e a palavra “pedal”.
O resultado foi este…
Cauteloso e minucioso, o suricata César passa a pente fino todos os cantos da sala. De lupa em punho, olha tudo com a atenção que o caracteriza. Recolhe provas que pega cuidadosamente com uma pinça e as coloca em saquinhos transparentes, guardados depois na mala. Há 7 anos que é o responsável do departamento de investigação criminal da cidade e, é com orgulho que todos os dias coloca o seu reluzente crachá na gabardine que usa.
O silencio do local é interrompido.
– Possa, rais parta a chuva! É hoje que o Noé nos vai pôr a todos no bote?
– Xiiiuuuu. Fala baixo, isto é um local de crime. Quantas vezes vou ter de te explicar como se comportam as pessoas da nossa profissão?
O esquilo Raul encolhe os ombros, desvalorizando a reprimenda do seu colega. É mais descontraído e festivo e essas são caraterísticas que deixam qualquer meticuloso suricata arreliado. Raul arregaça as mangas da camisa, desabotoa o primeiro botão do colarinho e aproxima-se de César tentando inteirar-se do que se passa.
– Então o que temos aqui hoje? – diz Raul.
Mas antes que o colega lhe pudesse responder, Raul vê a vítima no chão e as suas curtas patas dão um salto para trás de susto.
– “A… a…”
– Sim, é a Senhorita Green. – informa César.
A jovem tartaruga estava inanimada no chão, ladeada por alguns agentes policiais e algumas fitas que resguardavam possíveis provas.
– Ela… ela está… – gaguejou Raul.
– Morta! – respondeu César impaciente.
– Mas e… o que aconteceu? Passou mal? Teve um enfarte?
– Se nós aqui estamos, achas que morreu de quê? De causas naturais é que não foi, não achas?
A paciência de César para com o seu colega, descia a pique a cada dia que passava.
– Mas ela era tão vivaça e cheia de pedalada…
Raul é interrompido por César, que vermelho de raiva o repreende por este ter entrado na sala sem o plástico de protecção calçado.
– Quanto mais tempo vou levar para te explicar como deves fazer o teu trabalho? Não sabes que tens de pôr os plásticos nos pés quando entras numa zona de crime, para que as provas não sejam contaminadas?
No preciso momento que acaba de proferir estas palavras, César perde a rosácea e empalidece em segundos. O seu olhar esbugalha como se de duas órbitas se tratasse. Aproxima-se das pegadas que o colega tinha acabado de deixar do chão. Pára estático frente a elas. Roda o pescoço para umas pegadas que tinha estado a analisar junto ao corpo da vítima. A sua mente fervilha de ideias. Olha siderado para Raul e questiona-o.
– Onde estiveste ontem à noite?
[Foto: Michael Mouritz]




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